Ética e prazer do alimento

Publicado por em out 16, 2012 em Blog | 1 comentário

Comer é um ato agrário”, Wendel Berry

Produzir alimentos é um ato gastronômico”, Slow Food

Com estas duas frases, a primeira de autoria de um poeta e agricultor americano e a segunda resultante da evolução do movimento Slow Food ao longo dos seus 25 anos de atuação, podemos entender o significado da ecogastronomia. Parece complicado, mas não é.

Gastronomia é uma palavra de origem grega (gastros = estômago, e nomia = conhecimento), que trata da “lei do ventre”, ou “um conjunto de regras necessárias para escolher e consumir alimentos com a satisfação do estômago”. É também definida como “a arte de preparar e cozinhar o alimento”, ou ainda “a arte de comer e beber bem, apreciando os prazeres da mesa e saboreando com paladar requintado”.

Para o Slow Food, movimento internacional que nasceu na Itália e hoje está presente em mais de 150 países, gastronomia é cultura alimentar, ou a arte de conhecer bem o alimento e de consumi-lo melhor.

Ao buscar o conhecimento sobre os alimentos para poder consumi-los melhor, entendemos porque “comer é um ato agrário”. Entendemos o quanto nossas escolhas alimentares estão profundamente relacionadas com o que acontece no campo, nas florestas, nos oceanos e nos rios. Influenciando o meio ambiente, ameaçando ou protegendo a biodiversidade, e mantendo ou distanciando os homens e mulheres da área rural.

Entendemos que, sem essas pessoas exercendo suas atividades como agricultore(a)s familiares, pescadore(a)s artesanais, extrativistas, e aplicando seus conhecimentos tradicionais e o respeito ao planeta Terra, não haveria prazer na mesa, pois não haveria o que comer de qualidade. Ou seja, “produzir alimentos é um ato gastronômico”!

Carlo Petrini, fundador do movimento Slow Food, descreve a gastronomia como “o conhecimento fundamentado de tudo aquilo que se refere ao homem enquanto se nutre”. Para ele, gastronomia é cultura, liberdade de escolha, fato criativo e não destrutivo, educação. A gastronomia é fonte de prazer, que é direito de todos, e como tal deve ser o mais responsável possível.

Através dessa responsabilidade, chega-se à percepção de que um gastrônomo que consome e goza dos produtos da terra não pode ser insensível às temáticas ambientais, aos problemas econômicos em escala global e às mudanças profundas que estão ocorrendo no mundo rural e urbano.

A ecogastronomia restitui a dignidade cultural do alimento, favorece a sensibilidade do gosto, protege espécies vegetais e raças animais, contribui com a defesa do meio ambiente e o uso sustentável da biodiversidade, estimula a cozinha típica regional e valoriza os alimentos saborosos. É, portanto, a união entre a ética e o prazer da alimentação.

Trata da arte de conhecer bem o alimento: sua origem; sua forma de produção; quem, onde e como se produz; o preparo da terra; como e quando semear; quando colher; onde e quando pescar; a melhor forma de armazenar; quanto custa produzir; qual o preço justo. Trata também da arte de consumir melhor o alimento: de quem comprar; como preparar e preservar; quais as tradições; qual o melhor tempero; como cozinhar; quais as receitas; como combinar; como inovar; como apresentar; como não desperdiçar.

Ecogastrônomos são aqueles que produzem, processam, preservam e comercializam os alimentos de qualidade em pequena escala, respeitando o meio ambiente e o bem estar animal – os produtores. São também aqueles que apóiam essa produção de qualidade através do consumo consciente, da valorização, da divulgação, da utilização, do comércio justo, do apoio técnico – os co-produtores.

A ecogastronomia pode ser parte do dia-a-dia de cada um de nós, seres humanos pensantes e sensíveis. Talvez até já faça parte da sua vida, e você ainda não sabia.

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Este texto foi escrito em 2011 para a Revista do Fica – Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental. Para ler este e outros textos da revista, clique aqui.

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Um Comentário

  1. Gostei do texto, bem explicativo, e descobri que já sou adepta há muito tempo do movimento slow food que, para mim, não passa de colocar qualidade de vida e saúde como prioridades no dia a dia, na alimentação cotidiana. Adoraria sua visita e opinião em meu blog: http://mariamestrecuca.wordpress.com/ Abs, Maria Sônia.

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